A maioria das pessoas ainda sente a necessidade de cultuar imagens, símbolos, mitos, atitudes, enfim, com as quais julgam evidenciar e fortalecer a fé. Soma-se a isso o condicionamento imposto pela sociedade, já que a maioria faz assim, age desse modo, diz que esse é o melhor processo, numa tradição arraigada que se transmite de geração a geração.
Vindo para o Espiritismo, tais pessoas carregam consigo todos esses hábitos, que se transformaram, à custa de constante repetição, numa segunda natureza. Agem automaticamente e torna-se-lhes dificílima a incorporação de novos hábitos totalmente opostos. É preciso tempo, esclarecimento e força de vontade.
Muitas destas práticas devocionais ostensivas são mais facilmente suprimidas. Outras, entretanto, mais subjetivas, permanecem firmes, enquistadas na alma do crente, vindo a aflorar nos exatos momentos em que surge o estímulo através de situações propícias.
Assim, não é raro encontrarmos aqueles que, nas Casas Espíritas, ainda estão apegados às imagens; outros consideram imprescindível aos médiuns o uso das roupas brancas; os que recomendam também os banhos de sal grosso ou de pétalas de rosas brancas como preparação para os trabalhos mediúnicos etc.
Ultimamente, outras novidades surgiram: os cristais, a cromoterapia, as pirâmides, os incensos etc. Muitos não se libertaram do culto aos mortos, que se manifesta através da visitação periódica ao cemitério, onde pensam encontrar junto ao túmulo aqueles que partiram, com ênfase especial para o "dia de finados".
Em relação à morte, o desapego dessas práticas é bastante custoso. Uma semana após o funeral de um ente querido, os parentes crêem ser imprescindível uma prece em plena reunião pública do Centro Espírita, isto quando não solicitam um culto especial em homenagem ao falecido. Muitos companheiros ficam até ressentidos com a instituição espírita que não adota tais práticas, julgando ser indiferença, ingratidão ou pouco apreço ante a dor que estão sentindo.
O mesmo ocorre nas datas festivas. Quando nasce uma criança não conseguem entender por que não se faz uma prece no Centro em benefício do Espírito que acaba de reencarnar. Se há um casamento alvitram a possibilidade de uma reunião na Casa Espírita para que se firme o enlace espiritual. Julgam que os Mentores da Casa devem vir abençoar a criança que nasce, o casal que se une, o Espírito que se foi. Concessões vão sendo feitas para melhor atender a essas necessidades e agradar ao público.
Respeitamos profundamente os sentimentos que ainda estão enraizados na alma do povo. Mas, em Doutrina Espírita não se pode contemporizar ou haver omissão com vistas às práticas exteriores. Através dos seus ensinamentos entendemos que todas essas demonstrações religiosas são absolutamente desnecessárias.
Manoel Philomeno de Miranda, em seu livro Nos Bastidores da Obsessão, psicografia de Divaldo Franco, trata exatamente desse assunto, no capítulo 16 (Ed. FEB), registrando as explicações de José Petitinga, o insigne espírita baiano, quando interrogado por um jovem espírita nas vésperas de seu casamento, sobre se no Espiritismo não deveria haver uma cerimônia qualquer para comemorar os grandes acontecimentos da vida. É oportuna a sua resposta, da qual transcrevemos alguns trechos:
" - O Espiritismo é a Doutrina de Jesus, em espírito e verdade, sem fórmulas nem ritos, sem aparências nem representantes, sem ministros. É a religião do amor e da verdade, na qual cada um é responsável pelos próprios atos, respondendo por eles, conforme o conhecimento que tenha da Imortalidade, dos deveres. 'É a Religião da Filosofia, a Filosofia da Ciência e a Ciência da Religião', conforme predicou Vianna de Carvalho em nossa Casa, com justas razões. Não se firma em enunciados estranhos à Boa Nova e tudo quanto os Espíritos informaram ao Missionário Allan Kardec se encontra fundamentado nos Evangelhos.
- E não
poderíamos [perguntou o noivo, interessado em ouvir a opinião de Petitinga
sobre o assunto] formular uma oração de ação de graças em momentos que tais?
- Sim, orar, podemos fazê-lo, porém, na intimidade dos corações, no silêncio do quarto. Uma oração pública requer sempre alguém mais bem adestrado, de verbo fácil e inspirado. Assim, iremos transferindo para outrem o que nos cabe fazer. E como orar é banhar-se de luz e penetrar- se de paz, pela decorrente comunhão com o Alto, devemos fazê-lo, nós mesmos, cada um, em particular. Que os compromissados o façam, está muito bem; que os nubentes o realizem, na intimidade da alcova, é de necessidade; que os aniversariantes o produzam, no altar da alma, é muito justo. Mas evitemos hoje que a nossa emoção e a nossa festividade sejam transformadas amanhã num culto exterior, que tenhamos começado... Cada um de nós, aqui presente, deve estar em oração silenciosa de bons pensamentos, em atitude de prece pela sobriedade dos atos, mediante o respeito moral e fraternal que nos devemos todos uns aos outros...
O Espiritismo é a religião que religa, permitam-nos a redundância, a criatura ao Criador, interiormente... Que tenhamos mais atitudes do que palavras !..." O Espiritismo leva o ser humano a uma profunda vivência interior, o que para grande número de pessoas é difícil alcançar. Precisam ainda de sinais exteriores, de práticas evidentes, de demonstrações ostensivas. Entretanto, quando começamos a apreender a Doutrina e a introjetá-la em nosso íntimo, vamos aos poucos nos despojando de todas as exterioridades. Quando a nossa fé se solidifica, por racional e lógica, temos a certeza do amparo Divino, da presença dos Amigos Espirituais, da realidade da vida futura, dos ensejos redentores que a reencarnação propicia, certezas estas que nos plenificam de esperanças ante o porvir que se inicia no minuto que vem.
Lembremo-nos sempre que não há necessidade de quaisquer cerimônias para que os Benfeitores Espirituais nos amparem, ajudem, socorram e amem. É preciso apenas o nosso pensamento em prece e o nosso coração sintonizado com o Bem.
E diante dos grandes acontecimentos de nossa existência, aprendamos que é no recesso do lar, na intimidade do nosso coração e junto aos entes que amamos, no altar nobre dos nossos sentimentos mais elevados, que devemos cultuar a Deus. Se dúvidas ainda existirem, recordemos Allan Kardec, o missionário da Terceira Revelação, que não necessitou de símbolos, cerimônias e rituais para receber de Jesus, através dos Espíritos Superiores, o Consolador que Ele prometera à Humanidade. Na austeridade e sobriedade de seu gabinete de trabalho ele se fez apóstolo da Verdade, tendo como únicos paramentos a pena e o papel.
- Sim, orar, podemos fazê-lo, porém, na intimidade dos corações, no silêncio do quarto. Uma oração pública requer sempre alguém mais bem adestrado, de verbo fácil e inspirado. Assim, iremos transferindo para outrem o que nos cabe fazer. E como orar é banhar-se de luz e penetrar- se de paz, pela decorrente comunhão com o Alto, devemos fazê-lo, nós mesmos, cada um, em particular. Que os compromissados o façam, está muito bem; que os nubentes o realizem, na intimidade da alcova, é de necessidade; que os aniversariantes o produzam, no altar da alma, é muito justo. Mas evitemos hoje que a nossa emoção e a nossa festividade sejam transformadas amanhã num culto exterior, que tenhamos começado... Cada um de nós, aqui presente, deve estar em oração silenciosa de bons pensamentos, em atitude de prece pela sobriedade dos atos, mediante o respeito moral e fraternal que nos devemos todos uns aos outros...
O Espiritismo é a religião que religa, permitam-nos a redundância, a criatura ao Criador, interiormente... Que tenhamos mais atitudes do que palavras !..." O Espiritismo leva o ser humano a uma profunda vivência interior, o que para grande número de pessoas é difícil alcançar. Precisam ainda de sinais exteriores, de práticas evidentes, de demonstrações ostensivas. Entretanto, quando começamos a apreender a Doutrina e a introjetá-la em nosso íntimo, vamos aos poucos nos despojando de todas as exterioridades. Quando a nossa fé se solidifica, por racional e lógica, temos a certeza do amparo Divino, da presença dos Amigos Espirituais, da realidade da vida futura, dos ensejos redentores que a reencarnação propicia, certezas estas que nos plenificam de esperanças ante o porvir que se inicia no minuto que vem.
Lembremo-nos sempre que não há necessidade de quaisquer cerimônias para que os Benfeitores Espirituais nos amparem, ajudem, socorram e amem. É preciso apenas o nosso pensamento em prece e o nosso coração sintonizado com o Bem.
E diante dos grandes acontecimentos de nossa existência, aprendamos que é no recesso do lar, na intimidade do nosso coração e junto aos entes que amamos, no altar nobre dos nossos sentimentos mais elevados, que devemos cultuar a Deus. Se dúvidas ainda existirem, recordemos Allan Kardec, o missionário da Terceira Revelação, que não necessitou de símbolos, cerimônias e rituais para receber de Jesus, através dos Espíritos Superiores, o Consolador que Ele prometera à Humanidade. Na austeridade e sobriedade de seu gabinete de trabalho ele se fez apóstolo da Verdade, tendo como únicos paramentos a pena e o papel.
Suely Caldas Schubert
Texto
publicado na Revista Reformador de fevereiro de 2005, páginas 18 e 19.
EQUIPE - DIJ SEFA
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